sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Engraçadinha é eterna


Por: Helder Miranda

Em outubro de 2009



Releitura: O que esperar de um livro que se relê 13 anos depois? Engraçadinha, de Nelson Rodrigues, pode superar as suas expectativas!


Intrigante reler um livro depois de muito tempo. Assustador, ao mesmo tempo. Não sei se porque 13 anos depois, quase a idade com que li o livro a primeira vez, aos 14, sou outro, ou porque Asfalto Selvagem – Engraçadinha, Seus Amores e Seus Pecados, que reúne em um só exemplar as duas partes do folhetim, relançado em uma impecável edição da Agir, continua exercendo o mesmo fascínio.

Explico: quando li a obra pela primeira vez, entre a minha casa e as carteiras do primeiro colegial, conheci, sobre um primeiro olhar, quem era Engraçadinha. Enigmática, talvez seja a personagem que sintetize toda a essência da obra do controverso autor, que vem sendo republicado pela Agir com edições que remetem a um merecido reconhecimento.

A história, originalmente publicada como folhetim de 112 capítulos no jornal Última Hora, entre agosto de 1959 e fevereiro de 1960, gira em torno da trajetória de Engraçadinha, uma mulher traumatizada por uma tragédia em sua adolescência, quando pertencia à alta sociedade, e supostamente regenerada, já em um subúrbio carioca. Enquanto tenta, de maneira autoritária e, ás vezes, desesperada, fazer com que a filha caçula, a sensual Silene, não repita os mesmos erros de sua juventude, que a marcaram e destruiram sua vida, Engraçadinha reencontra personalidades que fizeram parte de seu passado nebuloso, que tenta esquecer a todo custo.

Só pelos temos propostos no livro – incesto, lesbianismo e estupro – em uma época em que o moralismo imperava, Nelson já pode ser considerado um visionário e, principalmente, um corajoso. Asfalto Selvagem é um livro que, embora tenha sobrevivido ao tempo, é daqueles que tem a marca de uma época, muito doce, que já não volta mais.

Se os títulos da coleção são capazes de atrair o interesse das novas gerações, justamente pelo cuidado com que são produzidas e diagramadas, fato raro quando se trata de Nelson Rodrigues, na época em que li pela primeira vez não havia exemplares novos disponíveis nas livrarias, o que me fez recorrer a sebos. Leia Asfalto Selvagem – Engraçadinha, Seus Amores e Seus Pecados, de Nelson Rodrigues e viva intensamente cada palavra desta obra rodrigueana!


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Livro: Asfalto Selvagem – Engraçadinha, Seus Amores e Seus Pecados
Autor: Nelson Rodrigues
655 páginas
Ano: 2008
Editora: Agir

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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Suzana: O eu-poético feminino de Nelson Rodrigues


Por: Helder Moraes Miranda



Personagem de si mesmo, Nelson Rodrigues nos presenteia com a autobiografia no pseudônimo Suzana Flag, a misteriosa mulher que havia escrito os folhetins anteriores: Meu Destino é Pecar e Escravas do Amor (em 1944), os quais fizeram grande sucesso.

Tanto que Suzana virou celebridade nacional, recebendo cartas de homens apaixonados (até mesmo de presidiários). Poucos sabiam que a verdadeira Suzana Flag se barbeava com "Gilette". O alter-ego da personagem era o polêmico escritor que refugiava no pseudônimo feminino para fugir da censura que imperava na época.

Ao contar a história mirabolante da "pobre" escritora, Nelson descreve detalhes da própria vida, como as tragédias que presenciou na juventude. No folhetim mais ousado (porque não?) de Suzana Flag, ele difundiu as idéias mais polêmicas que, até então, eram apresentadas somente em suas peças teatrais. A verdadeira face da "escritora" começa a ser esboçada.

Nunca uma autobiografia de um personagem refletiu tanto o autor. Afinal, como Suzana estava contando a própria vida, tinha a liberdade de contar apenas a verdade nada mais que isto, embora o pseudônimo confesse no início de romance a tentação de criar em cima dos fatos. Essa foi a única menção à escrita de Suzana Flag. Na obra, se tratando de uma "autobiografia" romanceada de uma escritora, ficou faltando explorar mais o assunto.

Era impossível que os leitores acreditassem no que liam. Antes de morrer, a mãe de Suzana lhe roga uma praga: "Você há de encontrar o homem que vai te fazer...", antes de terminar a frase ela morre, para o alívio da filha, assombrada.

Pouco tempo depois, o pai se mata com um tiro na cabeça, nenhuma mulher da família gosta da personagem principal. Todas a consideram uma biscate, como a mãe, e não é raro uma delas dizer: "Você não pode ver rapaz!" Para complicar a situação, Suzana quer vingar a morte dos pais, casando-se com o suposto amante da mãe (Jorge), o qual "teria" causado toda a tragédia no lar.

O que a mocinha não espera é que o seu tio Aristeu, odiado pela calculista avó, planeja levá-la junto com a sua família e a do noivo para uma ilha perdida, em que não há regras e as únicas leis são ditadas por ele. Lá Suzana irá ficar dividida entre três homens: Jorge, Aristeu e Cláudio, melhor amigo do próprio tio. No entanto, a personagem acaba envolvida em uma trama diabólica. Bom para quem quer sentir novamente, ou pela primeira vez, o delicioso sabor de uma época perdida e marcada pela inocência.


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Livro: Minha Vida
Autora: Suzana Flag (Nelson Rodrigues)
238 páginas
Editora: Companhia das Letras


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